Artesanato

Aspectos do Artesanato Fluminense
Elizabeth Lafayette
O processo para a criação de uma identidade artesanal se divide em várias etapas que variam desde exercícios de transformação do olhar do indivíduo-artesão em relação a tudo que gira ao seu redor: a história e a geografia da localidade em que vive, aspectos sociais, econômicos, educacionais e culturais, até dinâmicas de reavaliação da própria estrutura familiar. É a partir destas discussões que o artesão terá entendimento do seu papel como cidadão e clareza para desenvolver seu ofício de artesão com confiança e personalidade.
O Estado do Rio de Janeiro é dividido em oito regiões cuja produção artesanal mescla aspectos tradicionais, folclóricos e contemporâneos, sendo que alguns segmentos se tornam mais representativos em uma determinada região quando o tipo de matéria-prima utilizada é característica também daquela região.
Nas regiões litorâneas, Baía da Ilha Grande e Baixadas Litorâneas encontramos um variado artesanato em madeira: os tradicionais barcos de caxeta, as gamelas e outros objetos de uso doméstico de origem caiçara e indígena, entalhes representando os casarios ou aspectos da flora e da fauna da região; em linhas: acessórios, bijuterias e vestuário em crochê, macramê e tecelagem; em fibras vegetais: cestaria variada em taboa, taquara, fibra da bananeira, cipó-imbé e camará, sobressaindo-se a produção dos municípios de Paraty, Rio Bonito, Silva Jardim, Casimiro de Abreu, Maricá, Saquarema e Araruama; em tecido: colchas de retalho e bonecas de pano, símbolo de um artesanato que somou a técnica legada pelos colonizadores à criatividade africana; renda de bilro: técnica característica do litoral que vem sendo resgatada no município de Arraial do Cabo.
As regiões Centro-Sul e Médio Paraíba destacam-se pelo característico bordado sobre retalhos que mistura vários pontos em relevo que são aplicados em uma variedade de produtos na linha de acessórios e vestuário, exemplo da boa parceria da tradição x tendências. Outros dois segmentos muito importantes em ambas as regiões é o da movelaria em madeira e bambu, e, o artesanato em fibras vegetais, com destaque para a cestaria em fibra da taboa e o delicado reaproveitamento da fibra da palha de milho que é transformada nas mais variadas espécies de flores, em Avelar, distrito do município de Paty do Alferes.
As regiões Norte e Noroeste preservaram uma das técnicas mais tradicionais do bordado, o ponto cruz, que é aplicado em linhas de cama e mesa e enxoval de bebê. Estes produtos quase sempre são adornados por outras duas técnicas também tradicionais, os bicos de crochê e os raros abrolhos originais. Somam-se a estes segmentos, as cestarias em taboa e fibra da bananeira, os acessórios em couro do peruá, assim como os tapetes, capas de almofadas, mantas e cortinas criados em tear manual. Vale ressaltar a original produção artesanal dos municípios de Porciúncula e Varre-Sai que mostra com sabedoria a miscigenação de técnicas e culturas (portuguesa e africana) através de três segmentos: no primeiro, uma mistura de retalhos com formas, cores e estampados variados que são costurados à mão com diferentes pontos de bordado sobre tecido de saco, compondo ilustrações baseadas em aspectos históricos e arquitetônicos da região; no segundo, o aproveitamento de tiras de malha para confecção de roupas em tear de preguinho; no terceiro, o papel machê que é usado na criação de jogos, painéis, esculturas, gamelas, pratos decorativos pintados com as essências da região.
A produção artesanal da região Serrana foi herdada dos italianos, alemães e portugueses que imigraram para esta região sendo identificada pelo artesanato em tricô, crochê, bordado em ponto cruz, patchwork, produtos utilitários e decorativos em madeira – sejam eles pintados à mão, texturixados entalhados ou em marchetaria –, mantendo até os dias de hoje as características européias. Uma matéria-prima vegetal abundante em todos os municípios da região Serrana, passível de reaproveitamento, é o bambu usado na construção de móveis, quiosques, produtos utilitários e decorativos. Atualmente, o artesanato em bambu é um dos segmentos que exemplifica a idéia do trabalho auto-sustentável.
A região Metropolitana tem uma expressiva produção artesanal em matérias-primas industriais que devem ser reaproveitadas, como exemplo, o PET usado para confecção de produtos utilitários, decorativos, acessórios e bases de móveis (sofás, pufes, cadeiras), os jornais e revistas que são transformados em cestarias, porta-retratos, móveis, bijuterias entre outros. Duas técnicas em tecido estão em evidência, para tanto, foram adequadas às novas tendências sem perder suas características tradicionais: o retalho amarradinho e o fuxico que representam o artesanato que tem sua origem nas senzalas. Nos municípios da região Metropolitana que integram a baixada destacamos o artesanato em crochê, as bijuterias, os produtos em madeira pintados à mão com técnicas variadas e os bordados. A produção artesanal em fibras vegetais se revelou em Seropédica e Guapimirim com cestaria de fibra da taboa e da bananeira e em Queimados com cestaria de palha da piaçava. Para terminar esta breve viagem, não podemos esquecer a expressiva produção artesanal em cerâmica que identifica o município de Itaboraí.
Elizabeth Laffayette é Consultora sobre Artesanato.
Mais informações: www.rioartesanato.com.br
