Arquitetura e Urbanismo
ARQUICULTURA
No limiar de um novo ano que se inicia, como era costume dizer-se outrora, somos brindados com diversos balanços e retrospectivas. Durante uma semana, os Suplementos de cultura dos principais jornais dedicaram-se a elencar, a cada dia da semana, matérias sobre música, literatura, televisão, dança, artes plásticas, teatro e cinema. Perguntei-me: oitavo dia na semana houvesse, seria ele dedicado à arquitetura? Possivelmente não. Na sua frente ainda estaria, é provável, a história em quadrinho ou o novíssimo web design, ocupando o posto de oitava arte.
De fato, raramente o Brasil entendeu a arquitetura como uma manifestação cultural, embora seja, dentre as artes, a de consumo mais freqüente e difundido. Afinal de contas, de uma maneira ou de outra, todo mundo mora, mas a mídia parece não se dar conta disto...
Assim, mais um ano terminou e não tivemos a retrospectiva de arquitetura, mesmo num estado, como o Rio de Janeiro, cujo Departamento do Instituto de Arquitetos do Brasil, promove, há quarenta anos, uma Premiação Anual. Ficamos sem saber não só quais são os melhores projetos de 2005 mas, até mesmo, que arquitetos brasileiros foram premiados no exterior. Correndo o risco de omissões, de memória posso citar Lelé e Paulo Mendes, em Veneza, Jauregui, em Harvard, Lelé, de novo, na Bienal de Buenos Aires...
Em defesa de nossos veículos de comunicação, podemos citar alguns cadernos voltados ao mercado imobiliário, como o Morar Bem, que abrigam o exclusivo espaço impresso que a arquitetura dispõe. Entretanto, é comum, em outros países, a existência de cadernos especializados em arquitetura, como aqui temos os de veículos, embora nem todo mundo tenha carro... Poder-se-á dizer que os cadernos de imóveis são sobre arquitetura, no entanto, todos sabem a diferença entre a Bolsa de Mercadorias e a página do Celidônio sobre, aí sim, arte culinária. Ninguém confunde o boi futuro com o steak au poivre. Arquitetura pode até interessar ao mercado imobiliário mas são coisas distintas. Aliás, são pouquíssimos os anúncios que informam de quem é o projeto. Incorporação, construção, financiamento, até o stand de venda, por vezes, está lá. O arquiteto não aparece nunca, embora o que se esteja vendendo seja, tão somente, arquitetura.
O caderno de cultura, de toda forma, fica longe, embora a arquitetura seja, fundamentalmente, a expressão do quotidiano de qualquer povo em qualquer época. Não menos do que o que se escreve ou do que se canta. Ou, do que se come ou do que se veste.
O espaço em que se vive é resultado cultural. Culturas neolíticas tendem às formas circulares, as urbanas à retidão de traçados...A divisão dos cômodos numa casa é resultado de séculos de conceitos, e bastante preconceito. É o que define que a sala de jantar fique ligada às partes sociais do apartamento, e não à cozinha, por exemplo. Ou que existam entradas independentes, chamadas social e de serviços, ou que o quarto de empregadas seja menor do que os demais, embora sua função - abrigar um ser humano durante o sono - seja a mesma. A transformação da senzala no, recente, quarto reversível, passando pelos quartos de empregados nos terraços comuns dos prédios ou pelo cômodo minúsculo contíguo à área de serviço, retrata a trajetória das relações sociais em nosso país.
As casas, sem recuo frontal, e compridos corredores, de influência portuguesa, dão, até hoje a feição de nossas cidades, ao contrário daquelas com pátio interno, de gosto espanhol, que raramente encontramos por aqui, mas que reaparecem nos quarteirões do Castelo, desenhados por Agache. Voltar-se para fora, ou para dentro, é uma questão cultural, como o uso da rua, do espaço público, como prolongamento do interior da casa, é algo genuinamente carioca. As cadeiras na calçada e os churrasquinhos de esquina são manifestações, sobretudo, arquitetônicas, pois refletem as formas de apropriação dos espaços que, em resumo, é a definição mais precisa do que signifique arquitetura.
Assim, é possível que caso venhamos a entender um dia a arquitetura como fato cultural, o público venha a usufruir, de forma mais consciente, o envoltório de seus quotidianos, tornando-se por um lado, mais exigentes com os projetos e, por outro, valorizando mais esta produção.
O autor

Carlos Fernando Andrade é arquiteto e mestre em urbanismo. Foi Presidente do Instituto de Arquitetos do Rio de Janeiro, de 2000 a 2004, tendo organizado o Congresso Brasileiro de Arquitetos e a I Mostra Internacional Rio Arquitetura, em 2003. Ocupou diversos cargos públicos, dentre os quais a Diretoria da Empresa de Obras Públicas e a Subsecretaria de Planejamento.